14 de junho de 2009

vai passar, vai passar...

Ontem eu estava, por acaso, na sala vendo tv, e tava passando aquele programa Lar doce Lar, do Caldeirão do Huck. Num dado momento, Luciano disse que a moça lá que ia ter a casa reformada "estava mega sem grana". Pause. Luciano não quis dizer que a moça não conseguia reformar a casa porque era pobre, mas sim porque estava pobre. A substituição do verbo ser pelo estar evidentemente coloca de lado a idéia de algo que seria permanente, para nos transmitir a idéia de um estado transitório, passageiro.
No livro "A cultura do medo", Barry Glassner fala que nos EUA não se olha para a sociedade como aqueles que têm dinheiro e aqueles que não têm. Ao invés disso, a sociedade é vista como aqueles que têm e aqueles outros que irão ter. No Brasil, com certeza, esse olhar não é diferente. Pelo visto, essa idéia da pobreza como algo passageiro, como, sei lá, uma etapa no processo de ascensão social, é típica de países capitalistas que sempre proclamam a mobilidade social como uma de suas características especiais.
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Talvez não fique legal para um apresentador bacana, num programa descontraído que, enfim, está ajudando algumas pessoas a morar num ambiente melhor, dizer que essas pessoas são pobres. Pode não soar bem. Dizer que alguém é pobre, aliás, pode ser entendido como ofensa. A negação da pobreza como uma condição estável, com uma realidade persistente e, consequentemente, a negação do pobre como um indivíduo que é pobre, reconhecendo apenas o que está pobre, produz um efeito curioso: para que o indivíduo pobre ganhe existência, sentido e valor social ele precisa negar sua própria realidade e existência como tal. Se não existe pobreza como uma realidade social permanente na sociedade, também não existe a figura do pobre, mas a figura do que está deixando essa fase de pobreza, conquistando seu espaço na sociedade.
Surge então a figura do batalhador, do guerreiro, daquele que está, como no filme, "em busca da felicidade", daquele que irá ter. Nesse contexto, pode ser ofensivo dizer que alguém é pobre, porque tal classificação estaria colocando o indivíduo numa dimensão social, esta da pobreza permanente, cuja cultura capitalista não reconhece, muito menos valoriza, pelo contrário, nega a existência. Quando não dá conta de negar, menospreza, considerando que tal condição existe como um corpo estranho ao sistema. Assim, se referir a alguém como pobre seria o mesmo que dizer que essa pessoa não pertence à sociedade.
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A exclusão aqui ganha outro sentido curioso. Não é mais o capitalismo como um sistema concentrador que exclui a maioria. A exclusão agora só ocorre se o indivíduo optar por admitir a existência da pobreza em sua vida como uma condição estável que é reflexo da realidade social. A exclusão se transforma num processo de auto-exclusão. Caso ele concorde que não é pobre, mas que apenas está sendo, assume o papel de guerreiro, de super herói, e então passa a ser reconhecido pela sociedade. É uma questão de opção.

Essa visão da probreza como algo transitório também é adotada com respeito à violência. Foi num post de Marjorie Rodrigues que peguei as palavras de Marilena Chauí sobre o tema. Segundo a professora, há dois "procedimentos" usados na elaboração do "mito da não-violência brasileira". Um deles é o

de distinção entre o essencial e o acidental — por essência, a nação é não-violenta e, portanto, a violência é algo acidental, um “surto”, uma “onda”, uma “epidemia”. A violência é algo que pode acontecer sem afetar a essencial não-violência brasileira. A violência é passageira, momentânea e pode ser afastada.

Enfim, o consolo de que tudo nesta vida é passageiro.


5 comentários:

Srtª Elis: disse...

ahh que bom encontar blogs desta qualidade... muito bom gostei daqui vou te linkar... xerooo!

Fábio disse...

Tudo nesta vida é passageiro, incluindo a própria. No entanto, essa transitoriedade da pobreza nada mais é do que uma praga vinda dos livros de auto ajuda. Os mesmos que pregam que a gente não leia livros tristes para não sermos contaminados por eles. Ou do politicamente correto, que suavizam as palavras como se isso suavizasse os problemas. É tudo uma merda.

Agora, não pude deixar de comentar sobre sua primeira frase: "Ontem eu estava, por acaso, na sala vendo TV" é a desculpa mais usada e esfarrapada que existe" (risos).

Abraços!!!

Gabi disse...

Não sei bem o que pensar... mas tudo passa, passa apenas se alguém levantar e mudar o que está errado!!! Mas gostei da maneira que escreveu! bjos

josue mendonca disse...

Elis, que bom que gostou!

Fábio. Nunca entendi muito bem essa relação homem x tv, apesar de já ter queimado muito neurônio nisso. Mesmo consciente de seu poder de manipulação, parece que sempre algo, em algum momento nos seduz. quando penso que estou liberto, sempre vem uma tentação. não sei explicar. não sei distinguir quando é desculpa e quando não é. acho que já estamos de alguma maneira condicionados. parece que a tv já faz parte de nossa mente...tive uma professora de história que disse uma vez que a força da tv é muito grande, porque ela trabalha com imagens.
bem...ultimamente tenho visto pouca tv, por causa do trabalho e da faculdade..quando tenho tempo, fico mais na net. pouca coisa na tv aberta acho legal, e geralmente só rola tarde da noite..

obrigado pela visita

um abraço!

Lola disse...

Josué, as vezes não temos noção do bem que fazemos aos outros. Pois vim aqui dizer que suas palavras foram muito encorajadoras, mas muito mesmo. Precisamos saber do poder que carregamos e vim aqui te lembrar do seu. Obrigada mesmo.
saiba que esse seu espaço aqui é confortante demais. muito bom ler seus pensamentos tão pertinentes à loucura na qual estamos imersos. o gancho do huck foi ótimo ;) e o texto que o segue, excelente.