6 de junho de 2009

Dorothy, King e a imaginação


Matin Luther King sabia da importância do sonho para a sociedade. Em seu discurso "Eu tenho um sonho", em 1963, o ativista político convidava a nação americana para sonhar com ele, sonhar por um mundo melhor, onde não haveria injustiça, discriminação nem violência contra os negros.
Sonhar tem a ver com imaginar. E não é demais lembrar que a imaginação tem um papel importante no processo de transformação social. Segundo Marilena Chaui, "a imaginação utópica cria uma outra realidade para mostrar erros, desgraças, infâmias, angústias, opressões e violências da realidade presente e para despertar, em nossa imaganinação, o desejo de mudança".
Imaginamos muito quando crianças. Mas parece que com o tempo, à medida em que vamos nos tornando adultos, esse impulso para imaginar vai perdendo força, ao tempo em que nos tornamos cada vez mais conformados e adaptados à realidade. Há sempre um eco fantasmagórico dizendo que devemos aceitar a realidade.

Uma das experiências e lembranças mais gostosas de minha infância, no que diz respeito à imaginação, foi quando assisti pela primeira vez "o mágico de oz". A imagem que ficou guardada na minha mente até hoje foi aquela em que a casa onde Dorothy morava com seus tios, começou a voar após um tornado. Enquanto a casa ia voando e girando, girando e voando, eu ia girando e voando junto. Agora, Dorothy e eu, não estávamos mais na fazenda, naquela vida que ela considerava infeliz. Estávamos voando rumo a um outro mundo, o reino mágico de oz.
Eu não sei se o povo americano voou na casa de Dorothy, mas é possível dizer que a situação do negro nos EUA melhorou um pouquinho de lá pra cá.

Olhando pela janela, para esse mundo dos adultos, desconfio de que as pessoas, na verdade, nunca deixam de sonhar. Talvez elas apenas não sintam mais vontade ou coragem para expor alguns sonhos. Como forma de compensação, me parece que a sociedade delega aos artistas, sejam eles pintores, escritores, atores, essa função ou papel de imaginar, de elaborar realidades que seriam melhores de se viver, ainda que essa mesma sociedade pareça não acreditar ser possível acontecer, ou tenha medo que aconteçam. Talvez por esse medo de que certas mudanças sejam imaginadas pela sociedade, é que se atribui indiretamente ao artista esse papel de sonhador coletivo, cabendo a ele, dessa forma, expressar no seu trabalho os desejos e aspirações da sociedade. Mas atribuir ao artista o papel de sonhador coletivo, a meu ver, pode trazer efeitos negativos. Um deles é o de supor que elaborar cenários imaginários seja uma função exclusiva do artista. Um outro, esse mais grave, é o de vincular a imaginação criadora,que é algo positivo, com a imagem ou estereótipo que se faz, muitas vezes, do artista, quando é visto como o tipo de indivíduo que vive fora da realidade. É como se a sociedade, de alguma forma dissesse: não imagine demais, pois isso é coisa de gente maluca.
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Outra situação curiosa vem do fato de vivermos num mundo repleto de mudanças. Assim, ao mesmo tempo em que existe essa voz dizendo para aceitarmos ou nos conformarmos com a realidade, ou seja, essa repressão sobre a consciência imaginativa, para que esta não proponha uma forma diferente de as coisas funcionarem, essa mesma sociedade que muda tudo, ou quase tudo, o tempo todo, termina por nos forçar a mudar nosso padrão de pensamento, a olhar para as coisas sob uma nova perspectiva, a fim de nos adaptarmos ao novo. Nessas circustâncias, o homem vive um conflito. Ele não deve sonhar com mudanças, porque isso pode ser perigoso para o funcionamento social, mas deve, ao mesmo tempo, aprender a conviver com mudanças constantes, com as quais ele talvez nunca tenha sonhado. Em outras palavras, se hoje somos instruídos a ter que aceitar a realidade, porque não podemos fugir da realidade, amanhã podemos ser instruídos a esquecer essa mesma realidade, porque, enfim, as coisas mudaram. Nesse contexto, não cabe ao homem sonhar com mudanças, mas apenas se adaptar às que vierem pela frente, sempre comunicadas como naturais.
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É possível ainda fazermos outra distinção. Quando sonhamos com um mundo melhor, nosso desejo é por transformação. Ocorre que no mundo em que vivemos, em que os sonhos são sufocados pela realidade que devemos aceitar, as mudanças às quais devemos nos adaptar são geralmente apenas mudanças, e não transformações. Dorothy não queria mudar de fazenda, mudar a cor das paredes, mudar o nome do cachorro. Dorathy queria uma transformação, algo que representasse de fato uma nova experiência de vida.

Não sei quais sonhos as pessoas de hoje sonham. Não sei se ainda sonham, nem se nossos artistas estão representando devidamente os sonhos que lhe foram delegados. Às vezes me parece tudo natural e aceitável. Outras vezes, talvez em momentos de desconforto e inconformismo, a imagem da casa de Dorothy voando ressurge em minhas lembranças, como que me dizendo para nunca abandonar de vez a imaginação.

3 comentários:

Punksauro Nei disse...

Há muitos anos vi um documentario sobre uma ilha no Pacifico sul onde tudo na ilha (tribo) é baseado no sonho da noite anterior.

Como se a concretização da felicidade plena fosse a utopia. E todo dia.

Lembro vagamente das imagens locais. Não havia um padrão arquitetonico, portas redondas, quadradas, amebas. Casas, palhoças idem.

Legal.

josue mendonca disse...

Nei

acho que essa tribo teria algo a nos ensinar, a nós civilizados...

tai disse...

Eu fiquei muito feliz com seu comentário, obrigada! (: E ah, não vou nem comentar o jeito que você escreve, hoje estou meio sem inspiração para dizer algo à altura...

beijos!