26 de abril de 2008

O besouro e a origem do mal


Um dos grandes paradoxos da sociedade contemporânea diz respeito ao dilema "genética versus ambiente". A atribuição de causas, podemos dizer, em muitos casos, é um ato revestido de um certo... cinismo, diga-se de passagem, que visa, claro, à preservação da prórpria pele. Creio cinicamente que depois que o homem descobriu o gene, pôde, enfim e, a partir daí e, para todo o sempre, deitar no travesseiro sem um pingo de culpa na consciência. Tal descoberta fará o homem dispensar qualquer religião que limpe sua alma dos pecados agora geneticamente praticados. As descobertas em torno de nossa base genética significará, então, uma nova divisão na História da humaniade, pois, se o que salva o homem é o gene, o que o Filho de Deus veio fazer aqui?
A cultura, por outro lado, entra para dizer que tudo é cultural, claro. Hoje, enquanto o genético (natural) nega a cultura, ou a ação dos modelos culturais sobre o comportamento humano, o cultural nega, por sua vez, condições que o homem sempre acreditou ser natural, como a própria natureza humana. Como a maioria dos cientistas acredita haver uma influência de 50% a partir de cada um desses fatores, o resultado é que decidimos adotar por convenção a conveniência. (É conveniente salientar que a conveniência é a única verdade absoluta que regula o universo). Três casos noticiados essa semana em jornais e revistas, nos servem como exemplo. Antes disso, apresento-vos - do lado natural - três ilustres causadores de quase todos os males que a humanidade já experimentou: são eles o beseouro Dendroctonus ponderosae (mais conhecido como o besouro-fumaça), a enzima MAO-A (Mao não significa necessariamente, mas talvez, consequentemente, uma referência ao ditador chinês) e o gene AVRP1 . Do besouro temos a foto, copiada gentilmente por mim. Quanto aos outros, infelizmente, não foi possível fazer o mesmo.
O primeiro caso se refere ao besouro. Embora esse nefasto inseto seja detendor de um corpúsculo "do tamanho de um grão de arroz", sua ação sobra a natureza produz efeitos catastróficos, isso porque "ao matar árvores, (o) animal faz com que árvores liberem gases-estufa na atmosfera", assim, ele "poderá ser o responsável por transformar as florestas da América do Norte em gigantescas fontes de dióxido de carbono, o mais importante gás ligado ao aquecimento global". Ou seja, esta pesquisa, que deve ser publicada na revista Nature, dirigida por Werner Kurz do Serviço Florestal Canadense, indica que o "besouro que destrói florestas é (o) novo vilão do aquecimento global". Não sei o sabonete que foi usado, mas tenho certeza que após a divulgação dessa pesquisa, políticos e o empresariado do país mais poluidor do mundo lavaram as mãos. Se o mundo um dia acabar por efeito do aquecimento global, pelo menos já se tem a certeza científica de que quem vai arder no inferno são esses malditos besouros.
O segundo caso surge da aliança entre a enzima e o gene. Conforme explica o estudo realizado pelo Instituto de Psiquiatria de Londres e objeto de uma reportagem da revista científica New Scientist, noticiado pela BBC Brasil neste mês, tal enzima "regula a quantidade de serotonina no cérebro, molécula que tem um papel importante no controle da agressão". "O resultado indicou que crianças que sofrem algum tipo de abuso na infância e possuem uma forma pouco ativa da MAO-A têm três vezes mais chances de apresentar uma desordem comportamental e dez vezes mais chances de serem condenadas por um crime violento". Já o gene AVRP1 "permite a atuação sobre o cérebro da vasopresina, um hormônio que se vincula à sociabilidade e à afetividade dos mamíferos." Em 2005 já se havia descoberto que este gente estava diretamente relacionado ao altruísmo. A novidade esse ano foi a afirmação do pesquisador israelense Richard P. Ebstein, vinculando tal gene ao comportamento egoísta dos ditadores "a partir das conclusões de um estudo publicado na edição deste mês da revista científica Genes, Brain and Behaviour". Percebe-se que tais conclusões partem da análise de um gene e uma enzima. Quando descobrirem todos os outros que nos tornam sejeitos maus, poderemos iniciar uma campanha para canonizar Hitler e companhia. Só não entendo porque tinha que haver um israelense no meio disso...
Como não só com causas naturais explicamos nossos atos auto-destrutivos, podemos recorrer, como já dito, à cultura. Bem, do lado cultural, podemos citar como exemplo (terceiro caso) uma entrevista com o psicanalista francês Charles Melman que a revista Veja de 23/04/08 publicou logo após a reportagem especial sobre o caso Isabella. A entrevista abordava a questão da "dissolução do núcleo familiar" ou o processo de extinção da instituição familiar. Ou seja, quem hoje em dia jogar um filho de janela a baixo pode, num divã, aliviar sua alma encontrando explicações para seus atos de crueldade nos padrões sociais vigentes.
Como vimos, não precisamos de muita coisa hoje em dia para nos insentarmos de responsabilidades: basta um besouro, uma enzima e um gene. Se não funcionar, a culpa é de minha mãe.

Um comentário:

Janine disse...

É verdade, ninguém mais assume a culpa diretamente. Fez tal coisa porque teve uma infância conturbada, deixou de fazer porque não teve condições e blablabla. Parece até que a gente tá terceirizando a responsabidade dos nossos atos (q)

Escreve benzão. :D
parabéns.

;*