O velho apertava os olhos, protegendo-os da luz do sol que parecia apontar apenas em sua direção. Deslocou-se, pondo a mão sobre a do rapaz que o acompanhava à mesa e o chamou com ânimo:
- Olhe ali, do outro lado, na calçada!
O menino, num susto, ergueu os olhos que estavam voltados pro livro, um livro sobre antigos povos da Babilônia, e voltou a cabeça pra onde o velho apontara.
- O que? – Perguntou o rapaz.-
Aquela menina. Está vendo? – continuou falando em voz baixa, mas num tom vibrante.
- Sim, estou vendo – retrucou o rapaz, com expressão de impaciência.
O velho então parou. Parou e deixou, por instantes, o olhar se perder no espaço. A claridade do sol, agora, parecia não incomodá-lo mais. Aos poucos, foi abandonando a mão do rapaz e se encostando de volta na cadeira.
- Seus passos... seus passos eram tão leves. - Disse com certo deslumbramento.
E, novamente:
- Muito leves... – só que, desta vez, parecia estar falando pra si mesmo, suspirando.
- A leveza de espírito afeta a lei da gravidade? – perguntou o velho ao menino.
- Por acaso a leveza de espírito interfere no peso dos corpos? – insistiu o velho.
- Não, meu avô. - Respondeu o rapaz com olhar confuso. É evidente que não e o senhor deve saber isso.
- A ciência já examinou isso, meu filho? - Insistiu mais uma vez o ancião.
- Não haveria motivos para tal, meu avô. – Respondeu achando graça, pois, agora, entendia que o velho o provocava.
O homem voltou o olhar para a menina que agora já estava distante.
Um pouco à frente, uma esquina cruel roubara-lhe a pequenina de andar leve e cabelos longos e encaracolados.
Não deveria de haver esquinas, já que sempre nos roubam o olhar infinito. - Questionou o velho em pensamento.
Mas quando as coisas nos fogem dos olhos, a memória nos serve. E o velho via novamente aqueles passos leves, aquele corpo pequenino, aquela mão frágil segurando a da mãe. Cabelos encaracolados que se moviam conforme as vontades do vento.
O velho pegou de volta o charuto e permitiu ao menino voltar-se ao livro.
Bafejou, com o desleixo de sempre, aquela fumaça densa, mas tão leve feito os pés da menina.
E, silenciosamente, disse:
- Interfere meu filho. Interfere.
6 de abril de 2010
Frio
Eu nasci ontem. João. Eram três e quinze da madrugada. Sangue e frio.
Eu estava com 4 anos, frio, papeleão, sujeira.
Ontem eu tinha 9 anos, frio, febre, papelão.
12 anos, todos os olhos eram frios.
Semáfaro frio, olhos frios, noite fria.
Febre no frio. Comida fria. Noite fria.
Ontem eu me transformei num anjo.
corpo frio, e tudo continuava completamente frio.
Eu estava com 4 anos, frio, papeleão, sujeira.
Ontem eu tinha 9 anos, frio, febre, papelão.
12 anos, todos os olhos eram frios.
Semáfaro frio, olhos frios, noite fria.
Febre no frio. Comida fria. Noite fria.
Ontem eu me transformei num anjo.
corpo frio, e tudo continuava completamente frio.
drop the candy, chit!
Como um americano falaria expressões baianas feito "larga o doce pivete!?" Não tenho a mínima idéia. Mas se usarmos um mecanismo automático de tradução feito o google translator, teríamos algo como: "drop the candy, chit"
Sinceramente, não sei como se traduz um livro de literatura, por exemplo. Como um americano entenderia as expressões que Jorge Amado usa em seus livros? De uma forma um tanto distorcida, penso. Como mergulhar em outra cultura, ou melhor, como pensar através de outra cultura? Durante meu curso de Administração, ouvimos muito falar em mudança da cultura organizacional, adaptação à cultura estrangeira. Como um índio pensaria feito um português? Como um americano pensaria feito um Chinês? Como um francês pensaria feito um russo? Como um paulista pensaria como um sertanejo nordestino? Os sociólogos alegam que não é possível mudar uma cultura. Não é como um objeto, uma cadeira que mudamos do quarto para a sala. Se não é possível mudar a cultura de uma empresa, como seria possível mudar a cultura de um povo, de uma dada sociedade? Como seria possível que um árabe começasse a raciocionar como um americano? Outro dia li num blog de sociologia um comentário que me chamou atenção, pois fazia uma distinção entre integração social e inclusão social. Reparem a sutil diferença. Os meios de comunicação de massa falam que é preciso promover a inclusão social, não falam de integração. Por que? Porque incluir socialmente é oferecer um curso profissionalizante, por exemplo. Integrar é fazer com que o indivíduo marginalizado compartilhe do ambiente cultural do qual está excluído. É fazê-lo igual, não apenas participante. Se estamos inclusos, estamos ali no meio daqueles outros diferentes que nos olham diferente. Integrar vai além da ruptura de uma categoria social, como um emprego. O processo de integração leva o indivíduo a compartilhar da mesma cultura, o que significa compartilhar dos mesmos valores, mesmas ambições, mesmas crenças. Ainda falamos em inclusão digital. Quando falaremos em integração tecnológica? A meu ver, inclusão digital que se promove no Brasil é oferecer um computador com acesso à internet. Integração tecnológica, imagino, seria não só envolver o indivíduo num contexto tecnológico de tal forma que o mesmo fosse capaz de compreender as novas tecnologias, mas também receber a educação (conhecimento) adequada para produzir resultado (benefícios) para si e para a sociedade.
Já dizem os estudiosos de idiomas que a tradução não é um processo de decifração, mas de compreensão. Se podemos compreender o que Shakespeare falava naquele ingês arcaico, por que não podemos compreender o que fala um menino brasileiro que mora numa favela carioca ou nos subúrbios de Salvador? Garanto que nem é preciso usar o Google.
Sinceramente, não sei como se traduz um livro de literatura, por exemplo. Como um americano entenderia as expressões que Jorge Amado usa em seus livros? De uma forma um tanto distorcida, penso. Como mergulhar em outra cultura, ou melhor, como pensar através de outra cultura? Durante meu curso de Administração, ouvimos muito falar em mudança da cultura organizacional, adaptação à cultura estrangeira. Como um índio pensaria feito um português? Como um americano pensaria feito um Chinês? Como um francês pensaria feito um russo? Como um paulista pensaria como um sertanejo nordestino? Os sociólogos alegam que não é possível mudar uma cultura. Não é como um objeto, uma cadeira que mudamos do quarto para a sala. Se não é possível mudar a cultura de uma empresa, como seria possível mudar a cultura de um povo, de uma dada sociedade? Como seria possível que um árabe começasse a raciocionar como um americano? Outro dia li num blog de sociologia um comentário que me chamou atenção, pois fazia uma distinção entre integração social e inclusão social. Reparem a sutil diferença. Os meios de comunicação de massa falam que é preciso promover a inclusão social, não falam de integração. Por que? Porque incluir socialmente é oferecer um curso profissionalizante, por exemplo. Integrar é fazer com que o indivíduo marginalizado compartilhe do ambiente cultural do qual está excluído. É fazê-lo igual, não apenas participante. Se estamos inclusos, estamos ali no meio daqueles outros diferentes que nos olham diferente. Integrar vai além da ruptura de uma categoria social, como um emprego. O processo de integração leva o indivíduo a compartilhar da mesma cultura, o que significa compartilhar dos mesmos valores, mesmas ambições, mesmas crenças. Ainda falamos em inclusão digital. Quando falaremos em integração tecnológica? A meu ver, inclusão digital que se promove no Brasil é oferecer um computador com acesso à internet. Integração tecnológica, imagino, seria não só envolver o indivíduo num contexto tecnológico de tal forma que o mesmo fosse capaz de compreender as novas tecnologias, mas também receber a educação (conhecimento) adequada para produzir resultado (benefícios) para si e para a sociedade.
Já dizem os estudiosos de idiomas que a tradução não é um processo de decifração, mas de compreensão. Se podemos compreender o que Shakespeare falava naquele ingês arcaico, por que não podemos compreender o que fala um menino brasileiro que mora numa favela carioca ou nos subúrbios de Salvador? Garanto que nem é preciso usar o Google.
adeus
Se quiseres voltar, volta não
Porque me quebraste em mil pedaços
Adeus, adeus, adeus meu grande amor.
Porque me quebraste em mil pedaços
Adeus, adeus, adeus meu grande amor.
Legião Urbana
31 de março de 2010
nobre arte
Moça envia curriculum com o seguinte objetivo:
"Desenvolver possibilidades sumárias de interação com pessoas, atuando significativamente na nobre arte do bem-entender, com presteza e pró-atuação em prol da plena satisfação de necessidades."
Isso é o que dá essa mania de copiar e colar.
"Desenvolver possibilidades sumárias de interação com pessoas, atuando significativamente na nobre arte do bem-entender, com presteza e pró-atuação em prol da plena satisfação de necessidades."
Isso é o que dá essa mania de copiar e colar.
28 de março de 2010
paredão
E hoje me pergunto se aquelas crianças que vivem nas ruas e aquelas outras que morreram por falta de leito nos hospitais do Maranhão fazem parte de algum Big Brother.
Possivelmente um big brother onde não há paredão.
Possivelmente um big brother onde não há paredão.
sonho
Todas as vezes em que penso no meu avô, lembro da cena em que estávamos voltando da igreja de carro e passamos ao lado da praça do Rosário. Um dos sonhos de meu avô era estar vivo na virado do ano 2000. E lá estávamos. A imagem que ficou na minha mente foi a dos olhos dele brilhando ao olhar para as luzes que rodeavam a praça e a igreja. Luzes pequenas, faiscantes que anunciavam um novo milênio. Como todo cristão, meu avô nutria a esperança de que na entrada do ano 2000 poderia haver um acontecimento muito importante como a volta de Cristo. No livro de Monteiro Lobato intitulado "História do mundo para as crianças" eu havia lido quando criança que na virada para o ano 1000 os cristãos europeus também nutriam essa expectativa. Bem, como todos sabemos, Cristo não voltou. Poucos anos depois, ele realizou o segundo sonho que era pegar no colo uma bisneta. Foi Beatriz. Um pouco mais à frente, meu avô faleceu. Vez por outra sonho com ele e são sonhos muito reais. Meu avô participou da 2ª guerra mundial. Uma vez, deu-me algumas moedas que trouxe da Itália, moedas de diversas nacionalidades. Quando falava da guerra se emocionava. Acho que meu avô foi um herói.
Assinar:
Postagens (Atom)