10 de junho de 2009

quem sabe...

Fui até a cama de minha sobrinha (Beztriz de 7 anos) dar um beijo de boa noite e perguntei a ela como tinha sido o dia na escola. Ela disse que a escola estava em greve. Então eu perguntei:
--- mas por que está em greve?

e ela repondeu:

--- porque o prefeito não mandou o material.


Outro dia eu havia perguntado a ela como tinha sido o dia na escola. Ela falou que tinha brincado. Eu questionei: brincou o tempo todo? Não ensinaram nada hoje? Ela respondeu que sim.

Pergunta nº

1: o que o prefeito da cidade de Salvador está fazendo com o dinheiro da Educação?

2. será que as sobrinhas do prefeito também estão sem estudar?

Minha sobrinha é uma pessoinha inteligente. Aprendeu a ler e a escrever bem cedo. Mas, entre brincadeiras e greves, como fica o futuro da nação?

9 de junho de 2009

como uma sombra no ar


Num texto sobre o acidente do airbus , voo 447, Aline tocou num tema que me chamou atenção. Ela disse que os mortos nesse voo tinham personalidade. Ela analisou a forma diferenciada com que a mídia trata a morte de alguns, a das pessoas bem sucedidas socialmente, em relação a de outros, a dos pobres. Falou dos nodestinos mortos nas últimas enchentes, que não eram vistos como sujeitos individualizados, mas sim como um único corpo. Eu comentei com ela sobre essa visão que temos do pobre como massa, e que seu texto havia me lembrado um livro que dizia que no Brasil, o criminoso que tinha dinheiro era identificado pelo nome, profissão, título. Já o pobre, era apenas o 'elemento'.

Ao pobre realmente é negado personalidade, com se não bastasse lhe negar tantas outras coisas. Na verdade, não sei qual o pior para um indivíduo. Se é lhe negar posse de bens materias, ou destituí-lo de personalidade, identidade social, individualidade. Que importância social se pode dar a um ser - que aqui já não pode mais ser chamado de indivíduo, já que não possui mais individualidade - ao qual lhe é negado sua própria existência social? É interessante lembrar que já a partir do nascimento, é atribuído ao ser humano personalidade jurídica, o que significa a condição para adquirir direitos e contrair obrigações. Mas esse tipo de personalidade, pelo seu caráter meramente jurídico, não faz muita diferença na vida do pobre. Pode-se comparar essa situação à questão da igualdade de todos perante à lei. Mais uma vez o pobre se movimenta na dimensão jurídica, quando o que se pretende e o que, de fato, faria diferença para sua vida seria possuir personalidade ou identidade e igualdade na dimensão social. Embora detentor de direitos, ao possuir personalidade jurídica, e igual aos outros no âmbito legal o pobre, sob o olhar social, continua sendo ninguém, ou apenas uma sombra, a de todos que lhe são iguais na pobreza. Destituir, socialmente, um sujeito de personalidade é um ato de violência, no mínimo. Isso porque, num país como o nosso onde é costume se fazer perguntas do tipo: ''você sabe com quem está falando?'', talvez seja o mesmo que lhe conferir uma certidão de óbito pregada na testa. Mas há uma forma de compensar. Se não temos uma identidade individual para dar ao pobre, vamos dar pelo menos uma coletiva. O menino que nasce na favela, portanto, geralmente não é identificado por caractísticas pessoais, como traços de sua personalidade ou aptidões intelectuais, mas por elementos como time de futebol ou estilo de música. Pelo menos, algo pra se contentar.

Quando entrei na faculdade, a aula inaugural foi com uma senhora, aparentemente louca, pelo forma como estava vestida, colares, cabelo assanhado e gestos desmedidos. Mas não era louca. Durante a aula toda ela nos fez refletir, através de algumas brincadeiras, sobre a complexidade do ser humano. Ela usou uma bonequinha russa, daquelas que na verdade são cinco, uma dentro da outra para simbolizar que possuímos várias dimensões como seres humanos, feito a espiritual, emocional, intelectual, etc. Para a faculdade, era importante que o aluno tomasse consciência de seu significado e riqueza como ser humano, o que contribui sem dúvidas para seu senso de importância e de individualidade como sujeito social. Sem dúvidas, essa olhar mais amplo sobre nossa identidade, automaticamente nos ajuda a quebrar certos rótulos. O processo de inserção no ambiente acadêmico e, consequentemente, num meio social mais destacado tinha, portanto, como pré requisito adquirir, agora sim, identidade individual, deixar de ser massa para que, através disso, se pudesse manifestar a personalidade para seu devido reconhecimento social.

Não é a toa a famosa frase, "virar alguém na vida". É triste ver alguém que não é ninguém, porque a este pouca é dada a oportunidade de falar, de manifestar suas necessidades e vontades. Qual o sentido de ouvir alguém cuja existência social já lhe foi negada desde que nasceu?

6 de junho de 2009

Dorothy, King e a imaginação


Matin Luther King sabia da importância do sonho para a sociedade. Em seu discurso "Eu tenho um sonho", em 1963, o ativista político convidava a nação americana para sonhar com ele, sonhar por um mundo melhor, onde não haveria injustiça, discriminação nem violência contra os negros.
Sonhar tem a ver com imaginar. E não é demais lembrar que a imaginação tem um papel importante no processo de transformação social. Segundo Marilena Chaui, "a imaginação utópica cria uma outra realidade para mostrar erros, desgraças, infâmias, angústias, opressões e violências da realidade presente e para despertar, em nossa imaganinação, o desejo de mudança".
Imaginamos muito quando crianças. Mas parece que com o tempo, à medida em que vamos nos tornando adultos, esse impulso para imaginar vai perdendo força, ao tempo em que nos tornamos cada vez mais conformados e adaptados à realidade. Há sempre um eco fantasmagórico dizendo que devemos aceitar a realidade.

Uma das experiências e lembranças mais gostosas de minha infância, no que diz respeito à imaginação, foi quando assisti pela primeira vez "o mágico de oz". A imagem que ficou guardada na minha mente até hoje foi aquela em que a casa onde Dorothy morava com seus tios, começou a voar após um tornado. Enquanto a casa ia voando e girando, girando e voando, eu ia girando e voando junto. Agora, Dorothy e eu, não estávamos mais na fazenda, naquela vida que ela considerava infeliz. Estávamos voando rumo a um outro mundo, o reino mágico de oz.
Eu não sei se o povo americano voou na casa de Dorothy, mas é possível dizer que a situação do negro nos EUA melhorou um pouquinho de lá pra cá.

Olhando pela janela, para esse mundo dos adultos, desconfio de que as pessoas, na verdade, nunca deixam de sonhar. Talvez elas apenas não sintam mais vontade ou coragem para expor alguns sonhos. Como forma de compensação, me parece que a sociedade delega aos artistas, sejam eles pintores, escritores, atores, essa função ou papel de imaginar, de elaborar realidades que seriam melhores de se viver, ainda que essa mesma sociedade pareça não acreditar ser possível acontecer, ou tenha medo que aconteçam. Talvez por esse medo de que certas mudanças sejam imaginadas pela sociedade, é que se atribui indiretamente ao artista esse papel de sonhador coletivo, cabendo a ele, dessa forma, expressar no seu trabalho os desejos e aspirações da sociedade. Mas atribuir ao artista o papel de sonhador coletivo, a meu ver, pode trazer efeitos negativos. Um deles é o de supor que elaborar cenários imaginários seja uma função exclusiva do artista. Um outro, esse mais grave, é o de vincular a imaginação criadora,que é algo positivo, com a imagem ou estereótipo que se faz, muitas vezes, do artista, quando é visto como o tipo de indivíduo que vive fora da realidade. É como se a sociedade, de alguma forma dissesse: não imagine demais, pois isso é coisa de gente maluca.
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Outra situação curiosa vem do fato de vivermos num mundo repleto de mudanças. Assim, ao mesmo tempo em que existe essa voz dizendo para aceitarmos ou nos conformarmos com a realidade, ou seja, essa repressão sobre a consciência imaginativa, para que esta não proponha uma forma diferente de as coisas funcionarem, essa mesma sociedade que muda tudo, ou quase tudo, o tempo todo, termina por nos forçar a mudar nosso padrão de pensamento, a olhar para as coisas sob uma nova perspectiva, a fim de nos adaptarmos ao novo. Nessas circustâncias, o homem vive um conflito. Ele não deve sonhar com mudanças, porque isso pode ser perigoso para o funcionamento social, mas deve, ao mesmo tempo, aprender a conviver com mudanças constantes, com as quais ele talvez nunca tenha sonhado. Em outras palavras, se hoje somos instruídos a ter que aceitar a realidade, porque não podemos fugir da realidade, amanhã podemos ser instruídos a esquecer essa mesma realidade, porque, enfim, as coisas mudaram. Nesse contexto, não cabe ao homem sonhar com mudanças, mas apenas se adaptar às que vierem pela frente, sempre comunicadas como naturais.
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É possível ainda fazermos outra distinção. Quando sonhamos com um mundo melhor, nosso desejo é por transformação. Ocorre que no mundo em que vivemos, em que os sonhos são sufocados pela realidade que devemos aceitar, as mudanças às quais devemos nos adaptar são geralmente apenas mudanças, e não transformações. Dorothy não queria mudar de fazenda, mudar a cor das paredes, mudar o nome do cachorro. Dorathy queria uma transformação, algo que representasse de fato uma nova experiência de vida.

Não sei quais sonhos as pessoas de hoje sonham. Não sei se ainda sonham, nem se nossos artistas estão representando devidamente os sonhos que lhe foram delegados. Às vezes me parece tudo natural e aceitável. Outras vezes, talvez em momentos de desconforto e inconformismo, a imagem da casa de Dorothy voando ressurge em minhas lembranças, como que me dizendo para nunca abandonar de vez a imaginação.

5 de junho de 2009

É uma pássaro? É um avião?

Não. É o super Jobim.

Não sei exatamente qual título daria a esse post. Então vamos aos fatos para ver se clareia.

Fato 1: "A imprensa francesa criticou a precipitação das autoridades brasileiras (Nelson Jobim, ministro da defesa) em confirmar a origem das peças encontradas na área em que o Airbus teria caído".

Fato 2: " O ministro Joaquim Barbosa acusou o presidente do STF (Gilmar Mendes) de estar destruindo a credibilidade da Justiça brasileira".

Como a maioria deve lembrar, Nelson Jobim já foi presidente do Supremo Tribunal Federal. Isso significa que ele já tem experiência na função, de modo que não haveria problemas em ele retornar para desempenhá-la. Com um despacho só, resolvemos então dois graves problemas institucionais brasileiros: Convidamos Gilmar Mendes para sair às ruas de uma vez por todas, ao mesmo tempo em que enfraquecemos o ânimo das autoridades brasileiras de querer parecer competente diante dos olhos estrangeiros, até mesmo quando se trata de um fato invisível. Ninguem viu, ninguem sabe, mas Jobim tem certeza.

Jobim foi chamado pelo presidente Lula para assumir o ministério da Defesa no auge da crise aérea. Pelo visto, a experiência adquirida nessa fase foi suficiente para que o ministro, agora, chegasse a conclusões, com base em sua imaginação, sobre questões puramente técnicas da alçada da FAB. Um giro de holofotes, please! O que temos até agora é o sumiço de um avião, mas o governo de tão eficiente, já tratou logo de antecipar publicamente sua qualidade de atrapalhado, quando poderia esperar, sem custo de imagem, por um motivo concreto mais adiante que, com sorte, poderia nem surgir. Parece que o ministro pensou: ora, não basta o sumiço de um avião, precisamos inventar uma crise aérea.

Fiquei em dúvida então se o título do post seria: "Super-Jobim, o retorno" ou "Contra a crise aérea e a crise na Justiça, volta Jobim"

não

A luz vermelha acendeu.

Do lado de fora, o frio, um chuvisco e uma menina segurando saquinhos de amendoim. Parecia ter seus nove ou dez anos. Pés descalços, roupinha suja maltrapilha e uma expressão de por favor. Automaticamente respondi que não. Como é fácil dizer não... A menina afastou-se sem relutância. Talvez já acostumada com nãos. Mirei em seus olhos, distantes e pequeninos, e pude ver, sem querer, a cor da fragilidade, da carência e do abandono. Cor assim, não deveria de haver nos olhos de uma criança.

A luz verde acendeu.

4 de junho de 2009

da tristeza literária


Às vezes sinto uma tristeza literária. É uma tristeza que pode ter uma série de motivos do mais diversos, dos mais complexos, dos mais jamais compreendidos. Sinto tristeza literária do ponto de vista de leitor quando, por exemplo:


não entendo a informação
entendo a informação, mas não entendo o texto
entendo o texto, mas não entendo o contexto
entendo o contexto, mas não entendo o texto
entendo a informação, o texto e o contexto, mas não entendo a motivação do escritor
entendo a motivação, mas não entendo a redação
entendo o que o escritor quis dizer, mas não entendo o que ele disse
entendo o que ele disse, mas não entendo o que, afinal de contas, ele quis dizer
sinto que entendi tudo, perfeitamente tudo, e minutos depois me pulam 9,8 dúvidas
o texto é belo mas o conteúdo é vago
o texto tem o conteúdo é excelente, mas a letra é pequena e o fundo é preto ou vermelho
não entendo absolutamente nada

Outras tristezas literárias tem origem no meu próprio ato de escrever. Elas geralmente ocorrem quando eu>>>

penso, penso, penso e não sai nada que se aproveite, de modo que a conclusão do texto é selecionar tudo e apertar a tecla 'delete'
não penso, fica até chamativo, mas não digo nada
desconfio que nem eu mesmo estou entendendo o que escrevo
cito filósofos e despois descubro que tinha a ver, mas nem tanto assim
não consigo achar a palavra certa
não lembro da idéia que tive na noite anterior
sento pra escrever e esqueço o que ia escrever
analiso demais, considero vários pontos de vista, me perco e então travo
começo a achar que tudo é complexo demais e me sinto uma ameba
leio textos excelentes em blogs vizinhos e vem aquela sensação de "eu ia escrever sobre isso... mas não rolou inspiração"
me preocupo demais com palavras bonitinhas e perco o raciocínio
sinto que deveria ter lido um pouquinho mais antes de escrever
percebo que o que escrevi foi um puro desabafo emocional que nenhum leitor merecia
não consigo distinguir o que é importante escrever
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talvez a maior tristeza literária seja quando sinto minha cabeça oca

O pior é que não sei se vende na farmárcia algum chazinho que resolva isso.


2 de junho de 2009

porque concordo, em fases


Algumas pessoas dizem que é um erro jogar a culpa toda no governo. Às vezes, concordo com isso. Na verdade, concordo em fases, dependendo do grau de alucinação ideológica. Nas fases em que esse grau é alto, considero que o esforço individual do cidadão contribui para um mundo melhor. Nas fases em que desfruto de sanidade, ou seja, quando lembro que não posso perder a noção de perigo, considero que toda a culpa, não só do mundo, mas de todo o universo, é realmente do governo. Uma das poucas vezes em que vi um político falar uma verdade, foi quando Lula foi eleito presidente, e Geraldo Alckmin, querendo fingir de simpático e socialmente responsável, disse que o Brasil chegara a um momento de repensar os graves problemas gerados ao longo da história por nossas elites políticas e econômicas. Não foram exatamente essas palavras. Mas o sentido foi esse.
Semanas atrás, num post sobre questões ambientais,
Aline se referiu ao "poder de decisão" que nós, mortais, geralmente não temos. Num videozinho americano que assisti agorinha, entitulado "the story of stuff" (a história das coisas) e que trata basicamente do ciclo econômico de produção, consumo e descarte, a moça simpática que apresenta o vídeo também falou em "poder de decisão". Quando estou alucinado, sinto que posso transformar o mundo com meu poder de decisão sobre questões do tipo 'se vou trabalhar a pé ou se pego aquele engarrafamento de buzu com direito a tv bus', ou 'se faço três refeições ao dia ou pago minha faculdade'. Em fases normais, tenho a leve impressão de que o poder de decisão do Estado faz com que eu exista a partir do governo, pelo governo e para o governo. Por mais simplório e ingênuo que possa parecer, reafirmo que o problema vem de lá de cima mesmo. Mas falo em governo num sentido amplo, como tudo aquilo que, de alguma forma, nos governa. Governo, como todas nossas instituições derrocráticas, sejam elas políticas, econômicas, governamentais, jurídicas, financeiras, etc. A meu ver, todas elas, na prática, reproduzem, a seu modo, esse mesmo poder de decisão do Estado, e acabam assumindo mesmo o papel de governo todas as vezes em que manifestam seu poder de agir sobre a sociedade regulando,controlando, restringindo, boicotando ou simplesmente atrapalhando as ações e atividades de indivíduos e grupos. Essas instituições que, ao longo da história de nosso país, construiram e preservam essa nossa estrutura social geradora de distorções.
Mas se amanhã eu pegar um cogumelo e fizer um suco, vou montar num jegue e ir para a beira do riacho mais próximo proclamar a segunda independência do Brasil.

27 de maio de 2009

Gabo, Smith e os alfinetes


Um de meus escritores preferidos é Gabriel Garcia Marquez, e por um motivo muito particular: a sua habilidade para contextualizar até memso a cabeça de um alfinete. Mas falar em contextualizar ainda é impróprio, porque o que Garcia Marquez faz não é ligar o indivíduo ou um fato ao seu ambiente, seja este político, social ou cultural. Esse escritor, na verdade, realiza um mágica. Através do próprio desenrolar de cada ato, atitude, ou gesto individual, Gabriel manifesta o que poderíamos chamar aqui de, simplesmente, a realidade social. Realidade social no sentido de tudo aquilo que envolve e influencia aqueles comportamentos, mas que estava de alguma forma oculto, escondido. Realidade social como as crenças, os valores, as intenções políticas disfarçadas até no arquear de uma sobrencelha. Manifestar a realidade social através de ações ou atos particulares é diferente de ligar, por exemplo, o indivíduo à cultura, ou o fato ao seu contexto.

Outro escritor que tinha essa mesma ou quase mesma habilidade era Jorge Amado. Só que diferente daquele outro, Jorge Amado geralmente escancarava. Seu livro "Capitães de Areia" é uma prova disso. Não que isso signifique algo negativo. Ao contrário, talvez pelo teor do que Jorge A. descrevia, como os problemas de exclusão e preconceitos na Bahia, fosse preciso mesmo escancarar. Já Gabriel, a meu ver, não escancarava. Começava delineando. Gabriel não abria a porta, fazia o leitor perceber a distância e o tamanho da porta, para logo após fazê-lo tocar a maçaneta, dar uma espiada pela fechadura para que então, ao abrir a porta, recebesse, agora de vez, a realidade social com o mesmo impacto com que um corpo recebe o deslocamento de ar de uma explosão. Aquele deslocamento que faz os músculos da face tremerem. Era assim que eu me sentia lendo trechos do periódico "Da Europa e da América".

Arrisco-me a dizer que em Gabriel, os indivíduos incorporam a própria realidade. Não existe separação entre um político britânico, o próprio Gabriel, o jornaleiro da esquina e a realidade social. Todos se confundem, se misturam para revelar que são idênticos, na medida em que refletem essa mesma realidade que parece estar fora, mas que os constitui. É na confusão entre entre todos esses elementos que Gabo revela.

Crescemos ouvindo algumas vozes dizendo: não misture as coisas! E então aprendemos a ver tudo separado, como a divisão do trabalho em uma fábrica de alfinetes descrita por Adam Smith. Adam apregoou a divisão do trabalho, mas o mundo moderno acabou por dividir a própria realidade, de forma que cada elemento do sistema, paradoxalmente, sempre parece estar inteiramente isolado do próprio sistema. Ao ler Gabo, sinto que o mundo guarda uma coerência, que atos individuais refletem algo maior que os envolve, e que este mundo não é um alfinete, mas, por ironia, um alfinete pode conter muito do mundo.

25 de maio de 2009

vomito, logo penso


Fui na Saraiva esse fim de semana. A Saraiva é um daqueles espaços que funcionam como uma porta para outra dimensão: toda vez que um indivíduo que mora abaixo da linha do equador entra, tem uma leve sensação de que adentrou no mundo dos seres civilizados e fisoloficamente iluminados. É uma sensação de incorporação de algum nível intelectual mais elevado. Não que no Brasil, no nordeste ou na Bahia não existam seres iluminados. O fato é que, independente disso, a sensação é a mesma, porque o contraste é entre os dois ambientes, e não entre o indivíduo e o ambiente.

Entrei e dei aquela típica voltinha. Folheei aqui, folheei ali, na esperança de encontrar alguma novidade super fantástica. Existem algumas espécies curiosas de livros. Existem aqueles que parecem pular à sua frente gritando: "eu não valho nada, mas estou na promoção". Outros, dizem: "ei, psiu, olha só aqui atrás quem recomendou.." Já outros, não precisam dizer nada, o que vale é qualquer elemento estético ou se ele mexeu com você. Existem os simpáticos. Mas você olha, olha, olha e quando encontra uma mensagem com a qual gostaria de se iludir, você se lembra que já ouviu aquilo em algum momento de sua infância. Particularmente, acho que o pior de todos é aquele livro que para, olha pra mim e me pergunta num tom de desânimo e conflito: "por que eu virei um livro?", e eu me sinto pior ainda por não encontrar uma resposta.

Após conseguir superar todos esses percalços, cheguei à seção que queria. Sem direito à legítima defesa, dei de cara com o livro "o culto do amador", que havia conhecido um dia antes no blog de Marcos Donizette. Curioso para ver se Donizette havia lascado o pau no doido certo, comecei a folhear o livro. Sem querer, cheguei a um capítulo que falava que a prática de manipular músicas pela internet, violando assim os direitos autorais, estava destruindo nossa cultura, baseada nos valores da tradição judaico-cristã. O capítulo começa com a referência ao mandamento: "não furtarás". Isso foi o suficiente para que eu já começasse a sentir uma ânsia de vômito. Acho que as livrarias deveriam, além de bancos e sofás, disponibilizar recipientes em cada corredor para situações de vômito de gênese intelectual. Não tive coragem de ler mais nenhuma página. Fui apenas na orelha do livro para identificar a cara do escritor. O padrão conferia: cara de aloprado. É preciso manter um registro mental de certas fisionomias, porque servem como um critério a mais para decidirmos sobre que tipo de livro nos arriscaremos a ler. Coloquei-o de volta na estante e fiquei imaginando o que mais me doía. Se era o preço que um leitor ingênuo iria pagar pelo lixo reciclado, ou seu prejuízo mental. De frente para o livro, era a minha vez de me perguntar: como eu havia virado um leitor?

22 de maio de 2009

eu adoro


Eu adoro as reuniões do G...qualquer número. Pois é através delas que temos a oportunidade de visualizar, a nível top, o poder simbólico do aperto de mão, do sorriso para as câmaras e do exercício de, em se tratando de nada, se dizer alguma coisa. É um momento único, em que podemos observar líderes mundiais com tantas responsabilidades, num esforço coletivo e solidário de se reproduzir, em escala global, o típico fenômeno do vácuo político. Mas não se engane quem pensa que alguém ali perdeu a viagem...