1 de maio de 2008
Seria mais simples
Às vezes penso que o ser humano é um ser estranho. Então, me parece perfeito que ele fosse um ponto. Um ponto sempre é redondo, resume tudo, começa no fim e termina no fim.
29 de abril de 2008
Aqui se vive, aqui se paga
Estudo realizado pelo IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário), divulgado nesta segunda-feira, 28/04/08, revela, entre outras, que "o brasileiro que nasce em 2008 (calma,você não nasceu em 2008!) trabalhará metade de sua vida para pagar tributos". “Isso demonstra sensibilidade do Estado brasileiro para com a população,”- comentou meu vizinho, secretário particular de assuntos escandalosos -“pois poderia ser a vida toda”, completou. Segundo o estudo, a expectativa de vida do brasileiro, de 1900 pra cá, cresceu 116%, enquanto que “a expectativa de pagamento de tributos aumentou 245%”. Isso significa que hoje, além de pagarmos pelos anos de vida a mais que desfrutamos aqui na terra, o excedente se refere ao pagamento antecipado por nosso tempo de vida no além, evitando assim um possível calote espiritual. “Cobrar antecipado na forma de excedente é uma medida bastante razoável”, comentou meu vizinho, “pois o governo ainda não dispõe de tecnologia que possibilite tributar almas”. Uma segunda corrente possui uma tese diferente. Ela reforça que ninguém veio ao mundo para viver de graça, principalmente agora que se pode viver mais. Mas, numa concepção menos filosófica, não acredita que haja pagamento “antecipado”, embora reconheça que esta seja uma prática da atual política tributária brasileira. Em compensação, aqueles que ainda tinham a esperança de que só na outra vida pagariam pelas maldades cometidas em sua presente vida, têm agora a oportunidade imperdível de rever suas crenças já que, segundo essa corrente, os estudos demonstram o que minha avó já dizia: "Aqui se vive, aqui se paga."
Conspiradores de plantão especulam que o governo já estuda um projeto de lei que criará um imposto específico - diga-se de passagem, provisório - sobre a média de volume de oxigênio consumido por cada cidadão vivo. Não se sabe ainda explicar o que estaria motivando esse projeto. De qualquer forma, a notícia boa é que o pagamento do tributo, se entrar em vigor, não terá caráter compulsório, incindindo apenas sobre aqueles que optarem por respirar.
Quem quiser ter uma indigestão hoje, antes ou depois do almoço, pode verificar o estudo completo em: http://www.ibpt.com.br
Importante: Ao acessar esse site você será tributado.
Conspiradores de plantão especulam que o governo já estuda um projeto de lei que criará um imposto específico - diga-se de passagem, provisório - sobre a média de volume de oxigênio consumido por cada cidadão vivo. Não se sabe ainda explicar o que estaria motivando esse projeto. De qualquer forma, a notícia boa é que o pagamento do tributo, se entrar em vigor, não terá caráter compulsório, incindindo apenas sobre aqueles que optarem por respirar.
Quem quiser ter uma indigestão hoje, antes ou depois do almoço, pode verificar o estudo completo em: http://www.ibpt.com.br
Importante: Ao acessar esse site você será tributado.
28 de abril de 2008
Devolva minha boneca!!
O governo do estado de São Paulo, numa atitude consciente à qual já está habituado, resolveu no domingo, 27/04/08, através de sua Secretaria de Segurança Pública, fazer uma demonstração em público e para todo o Brasil do quanto se preocupa com o dinheiro quem vem da mão do povo. Aproveitando os olhos e olhares consternados de todos os brasileiros que acompanhavam a simulação pelos peritos do assassinato da menina Isabella e sem pagar um centavo pela publicidade, fez o repórter da BandNews, que estava narrando a reconstituição, engasgar três vezes no momento em que um dos peritos jogou a boneca janela a baixo. Como (1) a trasmissão era ao vivo, (2) o repórter estava mal informado e (3) os fios que prendiam a boneca eram praticamente imperceptíveis para quem assistia pela tv, o repórter rogou por luz aos céus durante seus segundos de desespero, para que pudesse entender e explicar ao público o que ele próprio não conseguia compreender: a boneca foi jogada, mas, por interferência dos deuses ou falha da teoria de Newton, ficara suspensa no ar. Minutos depois, alguma fonte secreta e misterioso informou: a boneca parara no ar, não por motivo sobrenatural, mas por decisão da Secretaria de Segurança Pública de reduzir custos. A boneca encomenda da Alemanha, havia custado ao povo U$ 2.500,00, tinha o tamanho e peso da menina e era feita de uma borracha especial e, claro, não era necessário repetir o crime. A justificativa poderia ser outra como, simplesmente: a queda da boneca não influencia no resultado. Entretanto, não podemos dizer que o governo se aproveitou da situação para se dar ares de correto. Além do mais, todos sabemos que os outros milhões desviados, que os jornais noticiam todos os dias, seguirão seu rumo (subindo ou descendo) sem interrupção alguma. Interromper a trajetória, só se for pra economizar.
26 de abril de 2008
O besouro e a origem do mal

Um dos grandes paradoxos da sociedade contemporânea diz respeito ao dilema "genética versus ambiente". A atribuição de causas, podemos dizer, em muitos casos, é um ato revestido de um certo... cinismo, diga-se de passagem, que visa, claro, à preservação da prórpria pele. Creio cinicamente que depois que o homem descobriu o gene, pôde, enfim e, a partir daí e, para todo o sempre, deitar no travesseiro sem um pingo de culpa na consciência. Tal descoberta fará o homem dispensar qualquer religião que limpe sua alma dos pecados agora geneticamente praticados. As descobertas em torno de nossa base genética significará, então, uma nova divisão na História da humaniade, pois, se o que salva o homem é o gene, o que o Filho de Deus veio fazer aqui?
A cultura, por outro lado, entra para dizer que tudo é cultural, claro. Hoje, enquanto o genético (natural) nega a cultura, ou a ação dos modelos culturais sobre o comportamento humano, o cultural nega, por sua vez, condições que o homem sempre acreditou ser natural, como a própria natureza humana. Como a maioria dos cientistas acredita haver uma influência de 50% a partir de cada um desses fatores, o resultado é que decidimos adotar por convenção a conveniência. (É conveniente salientar que a conveniência é a única verdade absoluta que regula o universo). Três casos noticiados essa semana em jornais e revistas, nos servem como exemplo. Antes disso, apresento-vos - do lado natural - três ilustres causadores de quase todos os males que a humanidade já experimentou: são eles o beseouro Dendroctonus ponderosae (mais conhecido como o besouro-fumaça), a enzima MAO-A (Mao não significa necessariamente, mas talvez, consequentemente, uma referência ao ditador chinês) e o gene AVRP1 . Do besouro temos a foto, copiada gentilmente por mim. Quanto aos outros, infelizmente, não foi possível fazer o mesmo.
O primeiro caso se refere ao besouro. Embora esse nefasto inseto seja detendor de um corpúsculo "do tamanho de um grão de arroz", sua ação sobra a natureza produz efeitos catastróficos, isso porque "ao matar árvores, (o) animal faz com que árvores liberem gases-estufa na atmosfera", assim, ele "poderá ser o responsável por transformar as florestas da América do Norte em gigantescas fontes de dióxido de carbono, o mais importante gás ligado ao aquecimento global". Ou seja, esta pesquisa, que deve ser publicada na revista Nature, dirigida por Werner Kurz do Serviço Florestal Canadense, indica que o "besouro que destrói florestas é (o) novo vilão do aquecimento global". Não sei o sabonete que foi usado, mas tenho certeza que após a divulgação dessa pesquisa, políticos e o empresariado do país mais poluidor do mundo lavaram as mãos. Se o mundo um dia acabar por efeito do aquecimento global, pelo menos já se tem a certeza científica de que quem vai arder no inferno são esses malditos besouros.
O segundo caso surge da aliança entre a enzima e o gene. Conforme explica o estudo realizado pelo Instituto de Psiquiatria de Londres e objeto de uma reportagem da revista científica New Scientist, noticiado pela BBC Brasil neste mês, tal enzima "regula a quantidade de serotonina no cérebro, molécula que tem um papel importante no controle da agressão". "O resultado indicou que crianças que sofrem algum tipo de abuso na infância e possuem uma forma pouco ativa da MAO-A têm três vezes mais chances de apresentar uma desordem comportamental e dez vezes mais chances de serem condenadas por um crime violento". Já o gene AVRP1 "permite a atuação sobre o cérebro da vasopresina, um hormônio que se vincula à sociabilidade e à afetividade dos mamíferos." Em 2005 já se havia descoberto que este gente estava diretamente relacionado ao altruísmo. A novidade esse ano foi a afirmação do pesquisador israelense Richard P. Ebstein, vinculando tal gene ao comportamento egoísta dos ditadores "a partir das conclusões de um estudo publicado na edição deste mês da revista científica Genes, Brain and Behaviour". Percebe-se que tais conclusões partem da análise de um gene e uma enzima. Quando descobrirem todos os outros que nos tornam sejeitos maus, poderemos iniciar uma campanha para canonizar Hitler e companhia. Só não entendo porque tinha que haver um israelense no meio disso...
Como não só com causas naturais explicamos nossos atos auto-destrutivos, podemos recorrer, como já dito, à cultura. Bem, do lado cultural, podemos citar como exemplo (terceiro caso) uma entrevista com o psicanalista francês Charles Melman que a revista Veja de 23/04/08 publicou logo após a reportagem especial sobre o caso Isabella. A entrevista abordava a questão da "dissolução do núcleo familiar" ou o processo de extinção da instituição familiar. Ou seja, quem hoje em dia jogar um filho de janela a baixo pode, num divã, aliviar sua alma encontrando explicações para seus atos de crueldade nos padrões sociais vigentes.
Como vimos, não precisamos de muita coisa hoje em dia para nos insentarmos de responsabilidades: basta um besouro, uma enzima e um gene. Se não funcionar, a culpa é de minha mãe.
A revolução do cabelo
“Desde sempre, ao longo da história das civilizações, a cabeleira tem representado um elemento fundamental da personalidade humana, sustentáculo da beleza, do fascínio, da sedução e, às vezes, até mesmo do poder e da força... e, nos dias atuais, a mesma cabeleira conserva ainda um profundo valor simbólico...” (brasil.calvizie.net)
Houve uma revolução no universo feminino concernente à sua estética, comportamento, valores e estilo de vida devido ao um elemento muito singular: o cabelo. Melhor dizendo, devido ao ato (ou processo, em alguns casos) de alisar os cabelos. É claro que poucos perceberam ou comentaram sobre isso, mas o fato é que o ato de alisar os cabelos e a descoberta de que as mulheres agora, quase todas, poderiam ter cabelos lisos, provocou uma das maiores revoluções comportamentais de nosso século, superando até mesmo o tão proclamado movimento feminista. Como isso aconteceu? Vejamos:
Mariazinha era uma menina do interior da Bahia. Vivia subindo e descendo morros, correndo atrás de vaca, subindo em pé de siriguela, carregando lata d’água na cabeça, correndo descalça, atirando pedra em lagartixa, tomando banho em açude. Como se pode perceber, era uma pessoa de natureza simples, de comportamento não-industrializado, que ignorava aspectos do mundo padronizado, civilizado e de consumo e lazer alienados da sociedade moderna. Aos olhos de alguns preconceituosos, era semelhante ao um ser primitivo, não aculturado, uma espécie em extinção.
Ocorreu que num certo dia claro em que quase não se viam nuvens no céu (“nuvens no céu” como efeito poético, considerando-se que lá é o lugar onde geralmente residem), Patricinha, sua prima, foi visitá-la. Chegou à sua casa, bateu à porta. Quem veio atender foi sua mãe. Mariazinha não estava. Patricinha então resolveu esperar sentada no sofá. A essa altura, a menina da cidade já havia “fotografado” todo o ambiente da casa, ao qual ela atribuiu rapidamente todos os adjetivos pejorativos que até então pertenciam ao seu extenso vocabulário. Adjetivos pejorativos eram, aliás, as palavras que ela assimilava com mais rapidez nas aulas de gramática. Foi a partir dos adjetivos que Patricinha descobriu que as palavras tinham poder, principalmente quando sentia de volta os efeitos de suas manifestações verbais.
Mariazinha recebeu o recado, e veio correndo ladeira abaixo rumo ao encontro da prima que não conhecia. Os cabelos grandes e soltos, encaracolados, castanho-claros, balançavam ao vento em forma de ondas. Quando isso ocorria, era comum seu Antônio do bar, um velho de dois séculos de existência, deixar seu fumo cair e queimar a perna. As bolas de sinuca também nunca acertavam e um ou outro picolé caia no chão.
Chegando à casa, o inevitável: como diria Darcy Ribeiro, houve o que poderíamos chamar de “enfrentamento de mundos”. Os cabelos de Patricinha eram lisos, retos, uniformes, esticados, concentrados, numa harmonia perfeita com a lei da gravidade. Já os de Mariazinha, como já citados, eram livres, dados ao vento, ao sabor da natureza, do momento. Os olhos de ambas ficaram por alguns instantes assim, mirados uns nos cabelos da outra, como que tentando interpretar o sentido e direção de objeto deveras estranho. Patricinha, amante de adjetivos pejorativos de rótulos de xampu, tratou logo de classificar os cabelos da prima de “rebeldes, secos e quebradiços”, arrancando de Mariazinha uma respiração profunda, um rosto pálido e olhos esbugalhados. O fato é que no final das contas, Mariazinha foi passar uns dias na casa da prima na cidade, onde conheceria um instrumento de alisar cabelos. Isto iria mudar para sempre sua vida. Nos meios sociais que passou a freqüentar, seus cabelos naturais não eram mais vistos com aquela admiração de antes. Patricinha, que era sempre sincera, logo chamou a prima no canto e disse que ou ela mudava para sempre aqueles cabelos que lhe conferiam a imagem concreta de bicho-do-mato ou não sairia mais com ela. Mariazinha, embora tenha ficado magoada por algum tempo com tão arrogante declaração, cedeu às pressões da prima e passou também a usar cabelos que não contrariariam jamais a teoria de Newton. A partir daí, observou-se uma mudança de comportamento que nenhuma teoria de aprendizagem seria capaz jamais de prever. Maria, agora, não se chamava mais Maria e sim Mary. As amizades, os lugares que passou a freqüentar, a forma de se comunicar, os gostos e preferências, o estilo de andar e se vestir, os programas de televisão, as revistas, os gestos e olhares, a inclinação do nariz, tudo mudou. A cabeça havia mudado, agora nos dois sentidos e Mariazinha, aliás, Mary, se descobria uma menina evoluída, antenada a todas as modas, modismos e tendências.
Não é minha inteção fazer julgamento de valor, seja de comportamento ou de xampu. O aspecto relevante - compreendamos - de toda esse processo de assimilação cultural está no fato de que toda, TODA a mudança comportamental observada teve origem absoluta no trabalho racional e sistemático de alisamento do cabelo, acredite quem quiser. Não foi um processo de influências paralelas e simultâneas do meio social que foram aos poucos moldando os hábitos e atitudes de Mary. Definitivamente, não. O cabelo foi, além do ponto de partida, a condição única, suficiente e indispensável para que todas as outras mudanças pudessem ocorrer.
Como esse caso é representativo da população absoluta de cabeleiras alisadas, concluímos que caso houvesse durante algum tempo uma privação dos instrumentos alisadores de cabelo, o mundo se encontraria sob a ameaça de um verdadeiro retrocesso cultural, fragilizando os alicerces da estética e dos valores de consumo modernos, cujo único contraponto positivo previsto seria o aumento de marcações de consultas em clínicas de apoio psicoterápico.
Houve uma revolução no universo feminino concernente à sua estética, comportamento, valores e estilo de vida devido ao um elemento muito singular: o cabelo. Melhor dizendo, devido ao ato (ou processo, em alguns casos) de alisar os cabelos. É claro que poucos perceberam ou comentaram sobre isso, mas o fato é que o ato de alisar os cabelos e a descoberta de que as mulheres agora, quase todas, poderiam ter cabelos lisos, provocou uma das maiores revoluções comportamentais de nosso século, superando até mesmo o tão proclamado movimento feminista. Como isso aconteceu? Vejamos:
Mariazinha era uma menina do interior da Bahia. Vivia subindo e descendo morros, correndo atrás de vaca, subindo em pé de siriguela, carregando lata d’água na cabeça, correndo descalça, atirando pedra em lagartixa, tomando banho em açude. Como se pode perceber, era uma pessoa de natureza simples, de comportamento não-industrializado, que ignorava aspectos do mundo padronizado, civilizado e de consumo e lazer alienados da sociedade moderna. Aos olhos de alguns preconceituosos, era semelhante ao um ser primitivo, não aculturado, uma espécie em extinção.
Ocorreu que num certo dia claro em que quase não se viam nuvens no céu (“nuvens no céu” como efeito poético, considerando-se que lá é o lugar onde geralmente residem), Patricinha, sua prima, foi visitá-la. Chegou à sua casa, bateu à porta. Quem veio atender foi sua mãe. Mariazinha não estava. Patricinha então resolveu esperar sentada no sofá. A essa altura, a menina da cidade já havia “fotografado” todo o ambiente da casa, ao qual ela atribuiu rapidamente todos os adjetivos pejorativos que até então pertenciam ao seu extenso vocabulário. Adjetivos pejorativos eram, aliás, as palavras que ela assimilava com mais rapidez nas aulas de gramática. Foi a partir dos adjetivos que Patricinha descobriu que as palavras tinham poder, principalmente quando sentia de volta os efeitos de suas manifestações verbais.
Mariazinha recebeu o recado, e veio correndo ladeira abaixo rumo ao encontro da prima que não conhecia. Os cabelos grandes e soltos, encaracolados, castanho-claros, balançavam ao vento em forma de ondas. Quando isso ocorria, era comum seu Antônio do bar, um velho de dois séculos de existência, deixar seu fumo cair e queimar a perna. As bolas de sinuca também nunca acertavam e um ou outro picolé caia no chão.
Chegando à casa, o inevitável: como diria Darcy Ribeiro, houve o que poderíamos chamar de “enfrentamento de mundos”. Os cabelos de Patricinha eram lisos, retos, uniformes, esticados, concentrados, numa harmonia perfeita com a lei da gravidade. Já os de Mariazinha, como já citados, eram livres, dados ao vento, ao sabor da natureza, do momento. Os olhos de ambas ficaram por alguns instantes assim, mirados uns nos cabelos da outra, como que tentando interpretar o sentido e direção de objeto deveras estranho. Patricinha, amante de adjetivos pejorativos de rótulos de xampu, tratou logo de classificar os cabelos da prima de “rebeldes, secos e quebradiços”, arrancando de Mariazinha uma respiração profunda, um rosto pálido e olhos esbugalhados. O fato é que no final das contas, Mariazinha foi passar uns dias na casa da prima na cidade, onde conheceria um instrumento de alisar cabelos. Isto iria mudar para sempre sua vida. Nos meios sociais que passou a freqüentar, seus cabelos naturais não eram mais vistos com aquela admiração de antes. Patricinha, que era sempre sincera, logo chamou a prima no canto e disse que ou ela mudava para sempre aqueles cabelos que lhe conferiam a imagem concreta de bicho-do-mato ou não sairia mais com ela. Mariazinha, embora tenha ficado magoada por algum tempo com tão arrogante declaração, cedeu às pressões da prima e passou também a usar cabelos que não contrariariam jamais a teoria de Newton. A partir daí, observou-se uma mudança de comportamento que nenhuma teoria de aprendizagem seria capaz jamais de prever. Maria, agora, não se chamava mais Maria e sim Mary. As amizades, os lugares que passou a freqüentar, a forma de se comunicar, os gostos e preferências, o estilo de andar e se vestir, os programas de televisão, as revistas, os gestos e olhares, a inclinação do nariz, tudo mudou. A cabeça havia mudado, agora nos dois sentidos e Mariazinha, aliás, Mary, se descobria uma menina evoluída, antenada a todas as modas, modismos e tendências.
Não é minha inteção fazer julgamento de valor, seja de comportamento ou de xampu. O aspecto relevante - compreendamos - de toda esse processo de assimilação cultural está no fato de que toda, TODA a mudança comportamental observada teve origem absoluta no trabalho racional e sistemático de alisamento do cabelo, acredite quem quiser. Não foi um processo de influências paralelas e simultâneas do meio social que foram aos poucos moldando os hábitos e atitudes de Mary. Definitivamente, não. O cabelo foi, além do ponto de partida, a condição única, suficiente e indispensável para que todas as outras mudanças pudessem ocorrer.
Como esse caso é representativo da população absoluta de cabeleiras alisadas, concluímos que caso houvesse durante algum tempo uma privação dos instrumentos alisadores de cabelo, o mundo se encontraria sob a ameaça de um verdadeiro retrocesso cultural, fragilizando os alicerces da estética e dos valores de consumo modernos, cujo único contraponto positivo previsto seria o aumento de marcações de consultas em clínicas de apoio psicoterápico.
3 de março de 2008
O mundo, o homem e o macaco
Hoje, senti vontade der elevar meu pensamento ao transcendental. De esquecer que vivemos numa sociedade consumista cheia de comerciais das Casas Bahia. Hoje, quis esquecer do dinheiro (como meio de pagamento), dos engarrafamentos, de meu chefe, das provas da faculdade, do preço do barril de petróleo, da alta do dólar, do preço do leite, do desgelo das calotas polares, de todos os filmes assistidos que não prestaram, dos amigos falsos, da falta de dinheiro, de todos os políticos, dos avisos de cobrança pelos quais hoje pagamos, da internet lerda, da fila nos bancos e supermercados, das questões éticas sobre célula tronco, aborto, prostituição e maconha, dos cartões de créditos estourados, dos pratos sujos, do dvd alugado e arranhado, do som alto e estridente do vizinho nas manhãs de domingo, da alta dos juros, do celular sem crédito, dos ônibus lotados, do iogurte vencido, do caos aéreo, das tvs lcds da Sony que não posso comprar, da minha miopia, das muriçocas, dos agrotóxicos, dos vírus da internet, do regime talibã, da matança na Faixa de Gaza, da corrupção no Congresso Nacional Brasileiro (que belo nome), do fome zero e do espetáculo do crescimento. Enfim, resolvi pensar em algo transcendental, o que poderia significar saber quantos pingos de água caem por segundo em minha cabeça enquanto tomo banho, ou: se o homem veio do macaco, onde foi parar o rabo?
30 de setembro de 2007
Inteligência alienígena
Antônio Abujamra, em seu programa Provocações do dia 26/09, pergunta ao entrevistado do dia, João Sayad, Secretário de Cultura do Estado de São Paulo:
Existe alguma diferença entre assaltar e fundar um banco?
Existe alguma diferença entre assaltar e fundar um banco?
Um vaca per capita
Estava eu hoje pela manhã perambulando por um supermercado do bairro onde moro, tentando distinguir dentre os produtos, aqueles que me acarretariam menor prejuízo financeiro, quando ouvi, sem intenção qualquer de fazê-lo, uma senhora dizendo a si própria numa espécie de diálogo interno exteriorizado, que não entendia porque o leite tinha ficado tão caro. Eu respondi mentalmente, confome havia lido ou ouvido em algum lugar, que tal reajuste (?) se devia a um aumento da demanda pelo produto na China. Olhei para a lata de leite no meu carrinho e me assustei ao ver uma cara branca e redonda com aqueles olhos puxados de chinês. Chinês é um povo ruim e comunista que vem lá do outro lado do mundo pra diminuir meu poder de compra.
A senhora permaneceu por alguns instantes de dúvida angustiante diante das latas e resolveu por não levar nenhuma. Um outro rapaz, pegou um caixa de leite, que ele classificou já conformado como "leite de água pura".
Eu voltei pra casa com uma lata e com raiva de chinês.
Será que lá na China não tem vaca suficiente?
A senhora permaneceu por alguns instantes de dúvida angustiante diante das latas e resolveu por não levar nenhuma. Um outro rapaz, pegou um caixa de leite, que ele classificou já conformado como "leite de água pura".
Eu voltei pra casa com uma lata e com raiva de chinês.
Será que lá na China não tem vaca suficiente?
De cabeça fria
A paranóia por corte de custos nas organizaões contemporênas afetaram de modo decisivo o ambiente restrito e privado da vida doméstica na sua dimensão mais simples e corriqueira: o ato ou movimento automático de esforço desprezível de acender um minúsculo, magricelo e quebradiço palito de fósforo. Isto porque, pesquisa empírica realizada por mim nas últimas semanas demonstra de forma inequívoca que a chama de um fórforo de hoje não dura mais quanto a de antigamente. A dúvida que permaneceu sem respostas é se o problema está na quantidade de pólvora ou no tipo de madeira utilizada.
De qualquer forma, a medida é compreensível, afinal, por que só eles deveriam continuar de cabeça quente?
De qualquer forma, a medida é compreensível, afinal, por que só eles deveriam continuar de cabeça quente?
8 de setembro de 2007
Porque devo jogar minha tv no lixo
Diz-se por aí que a internet vem revolucionando os meios de comunicação e, por isso, tem afetado, mesmo, instituições poderosas de nossa época como a televisão. Televisão vem do burronês e quer dizer “aquilo que faz o sujeito ver”. Traduzindo num sentido mais prático, “o que faz o indivíduo pensar estar vendo algo que lhe interessa”. Para piorar, pode-se dizer que a televisão é um elemento da vida cotidiana mundial incompatível com a espécie humana desde sua invenção, não podendo, por isso, atribuir aos nerds do Vale do Silício a culpa por sua decadência natural. Vários características (próprias ou que lhe foram atribuídas anonimamente) eu poderia citar para fundamentar minha tese. Poderia fazer eco à voz de todos aqueles que passam a vida demonizando a tv ou acusando-a de instrumento de lavagem cerebral, o que, nas palavras de Durkheim, corresponderia a dizer de maneira mais elegante, um instrumento de moldagem da “consciência coletiva”. Mas não é sobre o poder de formar ou deformar opiniões que quero tratar. Muito menos se a tv contribui ou não de forma bem intencionada e inteligente para o desenvolvimento intelectual ou cultural do povo brasileiro. Muitos críticos consideram a novela uma ameaça terrível aos bons costumes por querer difundir de maneira pervertida os valores e hábitos de uma sociedade. Mas, não é sobre questões como essa que quero meter meu dedo e nariz. Minha crítica vem de uma observação bem menos polêmica ou complexa: “ A tv é um abuso". Isto porque (retomando o sentido original da palavra) ela "diz" e "quer" nos convencer de tudo aquilo que não queremos saber ou ser convencidos. Por esse motivo, só não vou jogar a minha fora amanhã porque ainda alugo dvds. Evidentemente, essa não é uma característica exclusiva e deplorável da tv. A maioria das mídias como jornais impressos e rádios sofrem do mesmo mal. Falo da tv pela razão óbvia de ser mais popular. Todo mundo, até minha sobrinha de um ano de idade, já descobriu que a tv é um milhão de vezes menos interessante que a internet. E por um motivo muito simples: não podemos escolher “o que” e “quando”. Já diante do mundo virtual, a mágica é perfeita. Ela pronuncia a palavra “Pimbo”, (manifesta sua vontade) - referindo-se ao desenho “Pingo”- dá um clique único (não precisa de muita coordenação motora) e pronto, desejo realizado. Já como a tv, a interatividade é substituída por aquela unilateralidade prepotente: "isso não me interessa, mas eu não tenho escolha". E para aqueles que defendem o controle remoto ou a tv a cabo como mecanismos de escolha, basta lembrar que ainda assim precisamos esperar (parece um palavrão) sempre. E se não podemos “escolher o que e quando” não podemos nada. Vê-se com isso que, além de todos as mazelas já mencionadas, a tv é ainda antidemocrática, ao ferir profundamente a liberdade individual. Diante da tv, não possuímos nem o direito essencial de dirigir nossa atenção, o que significa dizer que ela provoca uma “obstrução direta e rígida ao direito essencial de dirigir nossos pensamentos e, consequentemente, nosso ato de pensar”. Filosofia do Direito à parte, nossa experiência como telespectadores denuncia essa relação manipuladora tv-homem. Um exemplo clássico são as propagandas comerciais. Pagamos contas altas de energia, desperdiçamos tempo (o bem mais valioso de nosso século) para assistir ao mercado querendo introduzir em nossos cérebros uma idéia consumista de uma necessidade artificial de se comprar um bem fútil, algo sempre extraordinário. Há quem defenda que carro não é fúltil, mas, por outro lado, eu não tenho disponibilidade financeira (dinheiro) suficiente para comprar um à vista por R$ 34.000 (trinta e quatro mil reais). Mas é só esse fim de semana! Aproveite essa promoção! Oportunidade Imperdível! Eu, decididamente, não quero perder meu tempo assistindo a comerciais que, absolutamente, só interessam a quem vende. Definitivamente a internet é a salvação (a palavra é essa mesmo). E não falo isso olhando só pro meu umbigo. Pesquisa realizada por mim entre meus vizinhos revelam com dados incontestáveis que todos eles, após terem comprado um computador, vêm apresentando quadros graves de amnésia completa com relação a tvs. Tvs e comerciais, eu, conscientemente, vos sepulto!
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