Nasci como num pulo de gato. Mas não cai. Fiquei lá, suspenso, imóvel.
Ou talvez tenha nascido em dia de chuva, e era eu chuva. Mas não cai. Fiquei lá em cima, suspenso.
Mas não importa tanto quando nem como nasci. Cresci. Minha infância foi divertida, saborosa. Minha adolescência um pouco chata. Quando saio na rua não vejo pessoas nem carros. Vejo imagens que se misturam como no início de uma pintura tentando formar alguma desenho compreensível. Gosto do mar, de contemplá-lo, de mergulhar fundo e de boiar quando está morno e calmo. Gosto também de cinema (não com cheiro de pipoca nem de mofo), refrigerante, violão, passeios em tardes frias de primavera, literatura. Gosto de ouvir o povo falar, de seu jeito espontâneo, forte, genuíno. Gosto de observar o sujeito tipicamente regional. Sua fala, seus costumes, suas crenças. Gosto de nordeste brasileiro, lugar onde nasci e vivo até hoje. Gosto de boas canções, aquelas que expressam arte e coração. Gosto de livros, e observo o tamanho e forma das letras, a textura da folha e espaçamento entre letras e linhas. Não gosto de azeitonas, de comidas gordurosas, de gente falando alto, de comercial de televisão, nem de manchas em meus óculos de grau. Ah, gosto de estudar Inglês. Deve ser culpa do cinema americano.
Não tenho medo de morrer. Mas não quero jamais morrer do coração. Acho que dói, dói muito, aquela dor que vai apertando, apertando...Não, definitivamente não quero morrer do coração! Talvez fosse interessante morrer dormindo sonhando com, deixe-me ver, uma dessas mulheres espetaculares que aparecem em capa de revista. Se for necessário, já autorizo desde já o editor de meus sonhos a usar Photoshop. Ah, quando eu morrer também quero ser cremado, e que minhas cinzas sejam jogadas não num jardim, mas no Congresso Nacional, para entupir as narinas daqueles homens engravatados que procuram uma solução global para estocar dinheiro.
Não tenho traumas, apenas não gosto de pimenta no acarajé, e acho que isso é um direito meu, adquirido e inalienável. Tá bom, confesso que tenho algumas frustrações. Por exemplo, com minha idade, eu já gostaria de ser um escritor mundialmente famoso, um “monstro sagrado” da literatura, com livros traduzidos para mais de três mil línguas, alguns best-sellers listados no New York Times, um Pulitzer e um Nobel. Mas me conformo humildemente com os comentários afetuosos dos leitores de meu blog. Não é porque alguém se frustrou com algo ou sofreu bullying na infância que vai sair por ai atirando dentro de escola.
Se tenho alguma mensagem para as gerações futuras? Tenho. Peço que nunca se esqueçam de levantar os olhos, ao menos uma vez por ano, e mirar as estrelas, essas mesmas pequeninas, que brilham lá em cima tristes e sozinhas por toda a eternidade. Eternidade sim! Não importa se Einstein disse que o tempo é relativo. Outros dizem que tempo é dinheiro e aí cada um diz o que quer.
Sou pobre. Mas me sinto até na média quando são publicados esses estudos dizendo que 40 milhões de brasileiros vivem abaixo da linha da pobreza, que o Brasil é um dos países com maior desigualdade social no mundo inteiro, esse tipo de informação que sempre revela que nosso querido país está enterrado lá nos confins do terceiro mundo.
Hoje em dia se fala muito em preconceito contra gays, nordestinos, negros e por aí vai. Preconceito não é pão mas gosta de se multiplicar. Contra pobres, gordos, nerds (Geeks, Gamers, Retro-Gamers, Cards Gamers, Board Gamers, RPGistas, Fanbase, e o diabo a quatro) analfabeto, desempregado, operário, gente feia, música sertaneja, crente. Às vezes acho que a cada bebê que nasce no mundo, nasce um preconceito pra cada tipo de gente. Eu não tenho preconceito. Aliás, tenho alguns poucos... Não, é melhor dizer que não tenho nenhum.
Já sou formado, mas um dia quero fazer um curso numa universidade pública, tipo Federal. Não pela renome da instituição, mas é que gosto daquela área ampla e arborizada que geralmente cerca o prédio, daquele ar bucólico. É como se o saber, a cultura, as ciências e a filosofia pairassem sobre naquelas árvores, penetrassem por entre aquelas folhas, de modo que, ao colocar o pé ali o indivíduo já vai respirando conhecimento. É claro que tem gente que olha pra aquele matinho já pensando em outra coisa.
Às vezes gasto meu tempo pensando sobre o tempo. Outras vezes gasto meu pensamento pensando sobre o próprio pensamento. É feito aquele gato de que falei lá no início. Ele pula mais não cai, porque resolveu pensar um pouquinho.
13 de outubro de 2011
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2 comentários:
Entrei aqui por acaso, mas gostei tanto que decidi ficar! Você escreve muito bem! Parabéns!
Voltarei mais vezes!
Bjs!
Saudades de ti, querido.
Bjus
Caroline
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